Papo TVB - Emmie Reek, a drag queen brasileira do The Voice of Ireland

10 de jan. de 2016


Com quatro cadeiras viradas, a drag Emmie Reek é um dos nomes de destaque nos jornais mundiais quando o assunto é The Voice. Participante da quinta temporada do The Voice of Ireland, Emmie nasceu no Rio de Janeiro, mas está morando em Dublin há um ano e meio. A drag queen é a terceira na franquia em todo o mundo, que já teve a portuguesa Natasha Semmynova e a brasileira Deena Love no grupo. 

Batemos um papo com Emery Augusto, o nome por trás de Emmie Reek, para saber mais sobre a drag queen que tem conquistado a Irlanda, a rejeição no Ídolos brasileiro e a expectativa com o seu futuro profissional.

Portal TVB: Como foi pisar no palco do The Voice na Irlanda para a audição e de onde surgiu a motivação para entrar na competição fora do Brasil?

Emmie Reek: Então, em 2014 eu decidi vir pra Irlanda pra aperfeiçoar meu inglês e pra tentar diferentes oportunidades na música. O objetivo principal era o inglês. Porém, quando conheci meu noivo, acabei resolvendo ficar. Já que decidi ficar, era hora de voltar a correr atrás dos meus sonhos - coisa que eu já fazia no Brasil. Já tocava em bares e eventos. Pisar no palco do The Voice é algo incrível mas ao mesmo tempo aterrorizante. Geralmente quando você entra num palco, você consegue ter ideia de quantas pessoas estão por ali te assistindo e, de certa forma, como as pessoas estão reagindo. No The Voice é diferente. Existem quatro grandes cadeiras de costas pra você e a plateia em completa penumbra. Uma agulha caindo no chão pode ser ouvida. É estressante, dá medo, é grandioso, as atenções estão voltadas pra você, mas no fundo você sabe que é algo bom. Então, só te resta fazer o seu melhor e torcer pra alguma cadeira virar pra você! 

Portal TVB: Quando e como surgiu a Emmie Reek?

Emmie Reek: Emmie Reek é uma reunião de outros alter-egos do passado, de quando comecei a me montar de drag. Eu fazia só de brincadeira, porque sempre gostei dessa coisa de me vestir de mulher e depois voltar a ser eu mesmo, mas nunca tinha pensado em um dia levar a sério. Sempre gostei de assistir show de Drag Queen em boate, as achava maravilhosas. Daí em 2014, descobri o RuPaul's Drag Race e isso mudou minha vida (literalmente rs). Comecei a enxergar que é muito mais simples ser Drag e que a aceitação que elas têm é muito bacana. Comecei a pensar em ter a minha Drag. Assim nasceu a Emmie. Ela não era cantora ainda. Daí, um dia, ao descobrir Adore Delano, surgiu um estalo na minha cabeça e pensei: "é isso!". Descobri que poderia fazer isso pra vida toda. O mercado de drag cantora é algo de certa forma pouco explorado. Existe espaço. Desde então comecei a pensar em como fazer da Emmie Reek uma cantora e quando apareceram as inscrições pro The Voice, vi que seria uma oportunidade interessante pra começar.


Portal TVB: Quais são as principais influências (não só musicais) na sua construção artística?

Emmie Reek: Bom, devo começar dizendo que minha mãe, e não é clichê. Hahaha. Sim, minha mãe é o primeiro exemplo de mulher que segui (inclusive, pra homenagea-la, a Emmie tem duas pintinhas no rosto - minha mãe tinha as mesmas pintinhas na juventude) e a admiro muito. Ainda no meio Drag, admiro bastante Nany People, Suzy Brasil, Rebecca Foxx, e, claro, algumas Drags do reality da RuPaul, incluindo a mesma. Pra compor o estilo da Emmie, me inspiro bastante em Rihanna, Amy Winehouse e Christina Aguilera. Gosto muito de prestar atenção em moda e comportamento dessas artistas. O toque final é meu, porque Drag é como impressão digital, é uma coisa muito pessoal, são suas referências e a visão que você tem sobre o universo ao qual quer incorporar. Como artista/cantor, gosto muito de Rihanna, Christina Aguilera, Adele, Amy Winehouse, Lady Gaga, Caetano Veloso, Maria Gadu, Coldplay, Queen, Michael Jackson, Etta James e Backstreet Boys. Na verdade, gosto muito de muitos artistas, mas esses são parte de minha formação musical. Me considero bem eclético. Consigo colocar em uma mesma playlist curta músicas de Anitta, Valesca, Os Novos Baianos, Padre Fábio de Melo, É o Tchan e Ivete Sangalo.


Portal TVB: Na terceira temporada do The Voice Brasil, Deena Love, também drag queen, teve grande repercussão ao se apresentar no programa. Você acredita que as pessoas estão começando a admirar mais as drags queens ou ainda existe um longo caminho na busca pela quebra do preconceito?

Emmie Reek: Deena maravilhosa. A admiro bastante. Não assisti a todo o programa porque já não tava no Brasil, mas vi algumas apresentações dela e sempre achei de uma classe enorme. Acredito que tem surgido um movimento muito bom de Drag Queens no mundo, de forma geral, por causa do RuPaul, acho. É óbvio que Drag Queen é algo hiper antigo, mas havia muito preconceito contra "homem que se veste de mulher". Com a desconstrução e ativa discussão - ainda que lentamente - das questões de identidade de gênero, sexualidade e dos próprios direitos LGBT, as pessoas estão passando a respeitar um pouco mais esse universo. Não sei se a aceitar, mas pelo menos a deixar em paz quem quer viver como quiser. É óbvio que ainda existe um longo caminho: o Brasil ainda figura no mundo entre os países em cujo território se mata mais gays por homofobia. Mas a gente tá falando de Drag. Acho que o preconceito tá diminuindo. Afinal, por trabalho ou estilo de vida, cada um faz da sua vida o que quiser. Engraçado é que alguns gays tem preconceito com Drags, mas num todo acredito que a maré tá começando a ficar boa pra quem gosta de se montar rs.

Portal TVB: Você chegou a tentar outro reality show no Brasil, mas acabou não sendo aprovado. Como foi a experiência? Você se arrepende de algo?

Emmie Reek: Sim. Tentei Ídolos em 2009, 2010 e 2011. Cheguei sempre até a fase dos jurados, que é a televisionada, passando das eliminatórias iniciais, mas nunca ganhei "sim" deles pra avançar pra fase do teatro. Foi frustrante porque eu queria muito aquilo, achava que poderia mudar a minha vida. Tenho amigos que conseguiram e eu nunca. Cheguei a ser piada em rede nacional quando eu só tava ali lutando por um sonho. Não me arrependo porque primeiro aprendi que era um programa de televisão e não um teste pra um conservatório de música. Depois, não me arrependo porque aprendi demais sobre mim, sobre minha imagem, sobre minha voz (durante os anos em que tentei, amadureci bastante vocalmente porque buscava estar melhor pra tentar no ano seguinte) e conheci muita gente maravilhosa no processo das audições. Talvez eu só não estivesse preparado mesmo, mas a gente nunca entende isso no momento em que leva um "não". A gente quer que as coisas aconteçam na hora em que desejamos. Nem sempre é assim. Mas não parei de batalhar.

Assista à audição de Emmie Reek com a música "One and Only", de Adele.


Portal TVB: Mesmo sem a audição no programa ter ido ao ar, você já foi destaque em diversos jornais pelo mundo. Você esperava essa repercussão? Como tem recebido esse retorno da mídia e do público?

Emmie Reek: Olha, eu não esperava essa repercussão de maneira nenhuma! No último domingo, na chamada que aparece um trecho do programa seguinte, apareceu meu rosto e, num instante, minha página do Facebook começou a ganhar muitos likes. O número de pessoas que curtiam a minha página triplicou em dois dias. Daí, no meio da semana, recebi uma ligação do pessoal da produção do programa dizendo que alguns jornais queriam conversar comigo, e tudo começou. Isso porque o pessoal nem me ouviu cantando ainda! Já pensou se a audição é um fiasco? Hahaha. Brincadeiras à parte, tudo isso tem me deixado feliz porque no mercado do showbiz hoje em dia, não basta ser bom, tem que ser diferente. Então acho que essa minha diferença serve pra alguma coisa hoje em dia! E quando me inscrevi, eu me inscrevi pensando basicamente na exposição que isso poderia me trazer. Então, o que vier pela frente é motivo de comemorar.

Portal TVB: A competição só está começando, mas você pensa em retornar ao Brasil e investir em sua carreira por aqui ou a Irlanda é a nova casa da Emmie Reek?

Emmie Reek: Olha, essa é uma pergunta bem difícil! Não sei se voltar a morar no Brasil, porque eu e Marcin - meu noivo - iremos nos casar agora no primeiro trimestre e devemos ficar por aqui. Mas eu não faço ideia aonde essa loucura toda vai me levar, então prefiro aproveitar o momento pra trabalhar e esperar o que vai acontecer com Emmie pra eu decidir minha vida! Agora você vê: a doida mal chegou na minha vida e já tá mudando todos os meus planos!

Quem quiser acompanhar o trabalho de Emmie Reek, basta acessar sua página no Facebook e seguir no Twitter (@emmiereek).
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Sobre Patrick Moraes

Jornalista baiano, viciado em música e reality shows musicais, escritor nas horas vagas e apaixonado pela diversidade.